Compatibilização de Projetos

Escrito por João Vitor Pereira de Deus sob orientação dos professores Alcino de Oliveira Costa Neto e Iara Ferreira de Rezende Costa.


Figura 01: Compatibilização de Projetos

Fonte: Blog Engenharia de Projetos, 2016.


As construtoras, na maioria das vezes, terceirizam a elaboração de projetos e contratam vários escritórios cada um especializado em determinada área, por isso durante o desenvolvimento do projeto há uma dificuldade de comunicação entre os profissionais dos escritórios e, assim, fatores importantes são desprezados e as interferências surgem no projeto gerando problemas na fase de execução e levando a alterações que não estavam no plano de execução da obra. De acordo com Tavares (2007) as implicações do não usar a compatibilização de projetos acarreta em má qualidade de execução, maior índice de retrabalhos e oneração do preço final da obra.


Diante disso, a compatibilização de projetos começou a se tornar relevante pelos profissionais de engenharia e arquitetura atuantes na elaboração de projetos. Em um mercado cada vez mais competitivo, segmentado em diferentes especialidades e com mais profissionais autônomos o mercado exige projetos integrados, com mínimos erros, reduzindo os custos e patologias provocadas por interferências.


A compatibilização de projetos é descrita como o gerenciamento de vários projetos e sistemas de um edifício de maneira que estes, por serem dependentes entre si, não se interfiram, criando soluções integradas entre as diversas áreas que tornam o empreendimento viável. Sendo assim, esse atributo deve ser válido e confiável desde o início dos estudos de caso do empreendimento até o início das atividades para ele destinadas (MIKALDO; SCHEER, 2007).


Para Horostecki (2014 apud ALGAYER, 2014, p. 50), a compatibilização consiste em analisar, verificar, confrontar e esmiuçar todas as etapas de produção de um empreendimento. Considerando a existência dos sistemas multidisciplinares presentes em um projeto, e que estes, em sua maioria, são desenvolvidos por profissionais de origens distintas, tem-se um aumento das chances de problemas construtivos. Portanto, a compatibilização aparece como a ferramenta responsável por identificar os problemas antes do início da construção, evitando retrabalhos por erros de projeto, garantindo o cumprimento de prazos e custos.


Segundo Giacomelli (2014) a constatação de incoerências geométricas entre os sistemas construtivos, através da compatibilização de projetos, possibilita a redução do retrabalho no canteiro de obras. Portanto, o gerenciamento e integração dos projetos garante a otimização dos insumos disponíveis, como tempo, material e mão de obra. Assim como facilita o processo de execução e a posterior manutenção.


A compatibilização de projetos permite visualizar de maneira antecipada os problemas e retrabalhos que poderiam ocorrer durante a execução de obra, frutos das interferências de projetos. É possível que o orçamento da obra seja feito bem próximo do valor real garantido, evitando desperdício de material e contratempos na obra. Assim, tem-se uma maior garantia de que a obra será executada conforme projeto, sem alterações na sua concepção, evitando risco de entregar algo diferente do que foi contratado. É uma forma de analisar todas as etapas que formam uma edificação e com isso prevenir possíveis interferências. A compatibilização, além de possibilitar interferências, reduz os gastos nas obras em até 8%. As ineficiências e retrabalhos devido a erros de projeto chegam a 200 bilhões de dólares na indústria da construção civil americana. Esses retrabalhos geralmente são interferência entre sistemas, como por exemplo, uma prumada de água pluvial descendo em frente a uma janela ou coincidindo com elementos estruturais (JUSTI, 2008).


Essa compatibilização pode ser feita de maneira convencional, sobrepondo desenhos 2D, modelagem 3D, ou plataforma BIM.


No processo convencional, são gerados projetos em 2D (bidimensional) sem conexões entre si, onde a visualização em conjunto destes é necessária para o entendimento do sistema do edifício. Desses projetos em 2D podem ser retiradas informações para a montagem e modelagem de um modelo em 3D, também conhecido como maquete virtual (SPERLING, 2002).


Figura 02: Sobreposição de Projeto Estrutural com Projeto Sanitário

Fonte: Revista Campo do Saber: COMPATIBILIZAÇÃO DE PROJETOS NA CONSTRUÇÃO CIVIL: IMPORTÂNCIA, MÉTODOS E FERRAMENTAS, 2017.


Para autores como Ferreira e Santos (2007), o método de sobreposição de desenhos na representação 2D é arcaico, pois oferece uma série de limitações ao processo, como problemas de visão espacial restrita, tornando-se uma possível fonte de erros de construtibilidade, especificação e compatibilização.


Na compatibilização em 2D, se insere um projeto base, por exemplo o de instalações hidrossanitárias, em bloco e em seguida algum outro projeto, como por exemplo o de prevenção contra incêndios. Esse tipo de compatibilização é um tanto quanto falha, pois omite algumas informações como cotas de tubulações entre outros, porém algumas interferências, sobreposições de elementos e falhas de projetos podem ser verificadas dessa maneira (SPERLING, 2002).


As análises feitas por meio de modelagem em 3D são mais detalhadas, pois contemplam os elementos de maneira volumétrica. Esse tipo de compatibilização pode ser feita, assim como a compatibilização 2D, pelo AutoCad. O que torna sua aplicação limitada é a demanda de tempo considerável, pois se necessita modelar elemento por elemento (MIKALDO, 2006).


Segundo Nascimento (2015), antes da tecnologia, engenheiros e arquitetos projetistas tinham problemas em mostrar para o cliente o modelo que se estava projetando. Os desenhos consistiam em representações de vistas ortográficas, detalhes em cortes e fachadas, tudo dependia da imaginação para se obter uma imagem em 3D. Alguns projetistas preparavam maquetes para que os empreendedores e clientes entendessem o projeto que estava sendo elaborado e verificar interferências dos diferentes projetos envolvidos. Com a evolução da tecnologia os projetos passaram a ser elaborados em 2D com software AutoCad, 3D com Revit e Sketchup. Todo esse avanço permitiu elaborar projetos de maneira mais rápida e otimizar o processo de compatibilização de projetos.


Uma alternativa para solucionar as incompatibilidades em projetos é o uso da plataforma BIM. Para Nascimento (2015), o BIM é um sistema criado para reunir todos os elementos relacionados à elaboração de um projeto auxiliando com diversas informações. Ele admite organizar, em um mesmo arquivo eletrônico, um banco de dados de todo o projeto, admitindo ser acessado por todos os projetistas envolvidos, sejam estes engenheiros ou arquitetos. O novo modelo trabalha com dados a respeito da geometria, detalhes construtivos, especificações de materiais, detalhes de quantitativos de preços e fornecedores, informações estruturais dos projetos envolvidos, topografia e dentre outros. A modelagem em BIM pode ser analisada como um desenvolvimento CAD. A grande diferença entre os sistemas é que no caso do CAD a modelagem é a partir de vetores e no BIM os objetos são parametrizados. Os parâmetros empregados levam as informações que precisarão suprir as obrigações de quem estiver usando. Os objetos são determinados de jeito a interagir com os objetos vizinhos e automatizar futuras alterações.


De acordo com Goes (2011), a tecnologia BIM é favorável para detectar e visualizar as incompatibilidades entre os projetos das diversas áreas, contribuindo na tomada de decisão para indicar saídas e resolver os problemas. Mesmo assim, nota-se que sua utilização como ferramenta de coordenação de projetos ainda não está estabilizada. O procedimento de compatibilização ainda acontece com as ferramentas CAD em um ambiente bidimensional pela grande parte dos projetistas. No Brasil, os principais problemas encontrados nos escritórios quanto à implantação do sistema BIM são a carência de tempo para implantação da tecnologia e a resistência de modificação de software pelos profissionais da área


A compatibilização se mostra valiosa não só para a demonstração das qualidades do sistema BIM, mas também para mostrar dificuldade e entraves que ocorrem no processo de desenvolvimento dos projetos. Para tal, é necessário que haja uma cultura organizacional e de planejamento de trabalho dentro do escritório de projetos (RIBEIRO, 2010).


Referências Bibliográficas


GIACOMELLI, Wiliana. Compatibilização de Projetos – Estudo de Caso.

GOES, R.H.T.B. Compatibilização de projetos com a utilização de ferramentas BIM. Dissertação de Mestrado apresentada ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo – IPT, São Paulo, 2011.

JUSTI, Alexander R.. Implantação da plataforma Revit nos escritórios brasileiros: relato de uma experiência. 2007. 08 f. Revista Gestão e Tecnologia de Projetos–Escola de Engenharia de São Carlos, Vol. 3, n°01. São Carlos: 2008.

MIKALDO, Jorge Jr. Estudo comparativo do processo de compatibilização de projetos em 2D e 3D com o uso de TI. 2006. 150f. Dissertação (Mestrado em Construção Civil) - Universidade Federal do Paraná: 2006.

NASCIMENTO, J. M. A importância da compatibilização de projetos como fator de redução de custos na construção civil. Instituto de Pós-Graduação – IPOG. Goiânia, GO. 2013.

NASCIMENTO, R. L. Compatibilização de Projetos de Edificações. 2015. 55 f. TCC (Graduação) - Curso de Engenharia Civil, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2015.

RIBEIRO, Tollendal G. R. Modelagem de informações de edificações aplicadas no processo de projetos de aeroportos. 2010. 132f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) - Universidade de Brasília, 2010.

SPERLING, David M. 2002. 06 f. O projeto arquitetônico, novas tecnologias de informação e o Museu Guggenhein de Bilbao. Pesquisa e Inovação em Gestão do Processo de Projeto de Edifícios. São Paulo, 2007.

TAVARES, Wandemberg Jr; POSSAMAI, Osmar. 2007. 09 f. Um modelo de compatibilização de projetos de edificações baseado na engenharia simultânea e FMEA. Pesquisa e Inovação em Gestão do Processo de Projeto de Edifícios. São Paulo, 2007.


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